Vivendo a diversidade

Da edição
por: Débora Kist
Data: 28/06/2018 | 10:43

Hoje é o Dia do Orgulho LGBTQ+, data celebrada mundialmente e lembrada devido a um episódio ocorrido em Nova Iorque, nos Estados Unidos, em 28 de junho de 1969. Há 49 anos, as pessoas que iam ao bar Stonewall Inn reagiram às batidas policiais que eram realizadas lá frequentemente.

O protesto contra a perseguição da polícia a lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais durou mais duas noites e, no ano seguinte, resultou na organização na 1° parada do orgulho LGBTQ+, realizada em 1970. Hoje, as Paradas do Orgulho LGBTQ+ acontecem em quase todos os países e em muitas cidades do Brasil ao longo do ano.

Mas casos como esses, vividos há décadas atrás, seguem em pleno século XXI. Ainda há inúmeros registros de discriminação e violência, os quais pautam diversos movimentos mundo afora. Movimentos, em sua maioria, para reforçar direitos e deveres, mas também para falar de orgulho. Pensando nisso, a equipe do NP! conversou com jovens venâncio-airenses que falaram sobre suas rotinas de convivência, seja em família ou na sociedade.

Cabe destacar que outros cases foram convidados a participar, mas com receio de reações negativas de familiares ou mesmo no trabalho, evitaram falar, embora valorizem a proposta. Importante ressaltar ainda que a ideia desse Na Pilha! não é expor alguma situação gratuitamente, mas sim, informar e mostrar o relato de quem pode falar com conhecimento de causa. Nesse aspecto, também fomos atrás de números de situações opostas, relativos a casos de violência e casamentos homoafetivos.

 

Foto: Arquivopessoal / Adriano Ellert (à esquerda) e o namorado
Adriano Ellert (à esquerda) e o namorado

 

A origem do orgulho LGBTQ+ diz muito sobre sua existência: em um mundo que constantemente julga, exclui, criminaliza e pune apenas por você ser quem é, é necessário resistir, afirmando sua existência e lutando por uma sociedade melhor para todos. A seguir, a visão de Adriano Ellert, que namora outro homem, e que falou sobre essas questões.

Na Pilha! - Nome completo:
Adriano - Adriano Leonardo Machado Ellert

Na Pilha! - Idade:
Adriano - 22 Anos

Na Pilha! - Profissão:
Adriano - Diretor de Arte

Na Pilha! - 28 de junho é o Dia Mundial do Orgulho LGBTQ+. Qual a importância desta data na sua avaliação?
Adriano - É uma data essencial no período que vivemos. O mês de junho inteiro é marcado por eventos e comemorações a favor da comunidade LGBTQ+ e, especialmente o dia 28, é uma data importante para abraçarmos as diferenças e lembrarmos que ainda há muito o que conquistar na sociedade.

Na Pilha! - Como você avalia o julgamento que a sociedade tem perante o público LGBTQ+?
Adriano - Felizmente, aos poucos, a sociedade de forma geral vem buscando aceitar mais as diferenças, não só sexuais e de gênero, mas raciais, religiosas, etc. Muitas dessas conquistas podem se dar pelo fácil acesso à informação que a internet trouxe. Hoje o diálogo é maior em qualquer âmbito, até mesmo na mídia tradicional (o que poucos anos atrás era diferente). No entanto, nada disso anula o preconceito que, infelizmente, ainda vive em grande parte da sociedade, que dependendo do espaço, pode ser, inclusive, fatal.

Na Pilha! - Você e seu namorado já enfrentaram preconceito ou foram hostilizados? Evitam ir em determinados lugares?
Adriano - Acredito que pelo fato de sermos privilegiados em relação a muitas coisas, tivemos pouquíssimas situações em que nos sentimos diminuídos. Digo isso por sermos brancos, de classe média, em uma relacionamento estável, com famílias que nos dão suporte. Tudo isso faz com que nos encaixemos nos padrões relativamente aceitos pelo consenso geral heteronormativo, que é maioria na sociedade. Mas infelizmente amigos gays que não se encaixam nesses padrões não tem a mesma realidade. Costumamos frequentar qualquer tipo de ambiente, com exceção daqueles que possuem qualquer histórico de discriminação.

Na Pilha! - Você percebe alguma diferença no tratamento ao público LGBTQ+ em Porto Alegre e Venâncio Aires?
Adriano - Vejo algumas diferenças entre as realidades dos dois lugares. Porto Alegre, como outras capitais ou qualquer outra cidade com um número maior de população ou com mais acesso à cultura, acaba por contemplar mais a diversidade e oferecer mais espaços ao público LGBTQ+. Isso não a faz um lugar melhor ou pior que uma cidade menor ou do interior, mas talvez mais convidativa a quem muitas vezes não encontra essas aberturas nas cidades pequenas.

Na Pilha! - O Brasil está num caminho de evolução em relação à aceitação da comunidade LGBTQ+?
??Adriano - Certamente sim. Apesar de um grande avanço conservador na política, é inquestionável que a comunidade LGBTQ+ vem ganhando espaço e aceitação na sociedade. Hoje é muito mais fácil buscarmos referências que nos abrangem, conhecer pessoas abertamente esclarecidas com suas sexualidades, dialogar sobre o tema. Estamos muito longe de acabar com o preconceito e conquistar plena igualdade, mas a cada dia vencemos lutas diferentes e nos mostramos mais orgulhosos que nunca.

Vivendo a diversidade

Assim que Alef Mainon de Azevedo Oliveira, 24 anos, percebeu que estava vivendo uma vida que não era dele, sentiu que era o momento de compartilhar com a família que era homossexual. Esta experiência aconteceu por volta dos 16 anos, depois de se redescobrir por completo como pessoa. 'Aos poucos fui me conhecendo e percebi que este sentimento era diferente. Parece que você começa a se sentir um pouco oprimido, e passa a agir como se fosse outro. A partir deste momento, senti a necessidade de abrir este sentimento para a minha família, que é a principal base da minha formação', afirma.

Ao tomar a iniciativa e vencer os próprios medos, a mãe de Alef foi a primeira pessoa a saber. Ela ficou surpresa no primeiro momento, mas entendeu a decisão e o acolheu. 'Minha família sempre foi muito unida, mas tive medo de romper os laços ao contar a minha opção sexual para os demais familiares. Ainda assim, tudo foi acontecendo aos poucos.'

O primeiro desafio de ter compartilhado com a família foi vencido, porém, no decorrer da adolescência, Alef teve que encarar outros medos, ao vencer o preconceito e a discriminação que ocorriam na escola, entre os amigos e na sociedade em geral. 'Como fui muito preparado pela família para ser um guerreiro, isso me fez mais forte para entender estas situações.' De acordo com o jovem, neste período ocorreram momentos desagradáveis. 'Tive que me retirar de um determinado lugar por não estar em uma situação confortável. Percebo que algumas pessoas têm preconceito, mas não tem vontade de atuar de forma contrária a isso.'

 

Foto: Régis Fabris / Folha do MateEm 2013, Alef conquistou o título de vice-mister Diversidade do Rio Grande do Sul
Em 2013, Alef conquistou o título de vice-mister Diversidade do Rio Grande do Sul

 

Representatividade
Para Alef, o preconceito também existe entre os homossexuais, mas as pessoas devem ter orgulho de si mesmas ao acreditarem que é uma opção e que todos são seres humanos com valores. 'As pessoas não precisam aceitar, mas tem o dever de respeitar a opção dos homossexuais com mais maturidade', explica. Ele acredita que, com o tempo, a situação vem evoluindo e as pessoas estão passando a enxergar de uma outra forma a diversidade.

Em 2013, Alef conquistou o título de vice-mister Diversidade do Rio Grande do Sul e se prepara para representar Venâncio Aires pela segunda vez, no dia 8 de setembro, em Cruz Alta. 'Quando participei do concurso tive a oportunidade de conhecer novas culturas e a realidade de outras cidades. Ao comparar com Venâncio Aires, vejo que aqui o assunto não é um tema muito abordado, mas percebo que o nosso povo não é preconceituoso quanto a este aspecto', finaliza.

Casos de violência contra LGBTQ+ crescem no Brasil, mas Venâncio não tem dados específicos

Um levantamento divulgado em abril pelo Grupo Gay Bahia (GGB) revelou que 126 mortes de LGBTQ+ no Brasil foram registradas no primeiro trimestre de 2018. A maioria dos casos aconteceu nos estados do Nordeste.

Em 2017, 445 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais foram mortos em crimes que teriam sido motivados por homofobia. O número representa uma vítima a cada 19 horas. O dado também é do GGB, que registrou o maior número de casos de morte relacionado à homofobia desde que o monitoramento anual começou a ser elaborado pela entidade, há cerca de 38 anos. Os dados do ano passado representam um aumento de 30% em relação a 2016, quando foram registrados 343 casos.

Em Venâncio Aires, embora não haja dados específicos sobre violência contra LGBTQ+, é comum casos serem registrados na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento. A informação é do delegado Vinícius Lourenço de Assunção. Segundo ele, não há estatísticas porque não tem como especificar o tipo de vítima, a não ser quando for mulher ou vítima de violência doméstica familiar. Assim, os casos são classificados como registros de agressão, ameaça, ofensa e perturbação, por exemplo. 'É comum gays irem à delegacia para registrar alguma queixa, seja de ameaça do próprio companheiro ou companheira, além de relatos de algum preconceito sofrido na rua ou no trabalho', destaca Assunção.

Ainda conforme o delegado, há situações eventuais envolvendo LGBTQ+ em que se pode garantir medidas protetivas. 'Nesses casos, o que deve estar presente é a violência de gênero, em que fique claro que uma das partes sofre opressão ou que seja 'dominada' pela outra.'

Sobre medidas protetivas, relacionadas à chamada Lei Maria da Penha, o delegado Vinícius diz que a delegacia de Venâncio Aires registra, em média, um caso por dia. E nessa situações, portanto, é possível incluir casos LGBTQ+.

Número de casamentos homoafetivos no Cartório de Registro Civil de Venâncio

1 em 2014
4 em 2016
1 em 2017
1 em 2018

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou, em maio de 2013, uma resolução que obriga os cartórios de todo o país a celebrar o casamento civil e converter a união estável homoafetiva em casamento. Desde então, já foram sete casamentos homoafetivos no Cartório de Registro Civil de Venâncio Aires. A informação é da registradora substituta do cartório local, Carmem Druciaki.