Medos

Da edição
por: Débora Kist
Data: 16/08/2018 | 16:39

Não bastasse a imensidão de desafios que a juventude traz ao natural, tem outra questão muito importante e que, às vezes, não recebe a devida atenção. Como superar os medos e aprender a conviver com eles? Na adolescência, por exemplo, que apesar das incríveis vivências que pode proporcionar, nunca é um fase simples, pois está relacionada a mudanças físicas, psicológicas e sociais. Por isso, ou também por isso, ter medo é algo comum.

Na edição de hoje, conversamos com algumas jovens que abriram o peito e falaram (sem medo!) sobre seus medos. Futuro, frustrações, perdas...
Para ajudar a entender determinados aspectos, pedimos a opinião de uma psicóloga.

A adolescência chegou ao fim. E agora?

A transição da fase da adolescência para o início de uma vida adulta já assusta por si só. Para Luana Thaís Schweikart, 18 anos, este é um período de mudanças, onde é preciso assumir novas e pesadas responsabilidades, que surgem de repente. Vestibulares, pressão da conclusão do ensino médio, primeiro trabalho, escolha do curso/área para seguir na faculdade, são algumas das atribuições que passam a fazer parte da rotina. 'Conseguir conciliar tudo isso é um dos meus maiores medos.'

A estudante do 4º ano do curso técnico integrado ao Ensino Médio de Refrigeração e Climatização do IFSul de Venâncio Aires confessa que este não é apenas o único dilema. 'Outro medo muito forte é com certeza perder alguém da família, que é base para tudo na vida, e sem a minha, não me vejo.'

Além disso, Luana também possui insegurança quanto ao futuro, principalmente quanto à escolha da profissão. 'Sempre temos aquela dúvida ao pé do nosso ouvido. Eu, particularmente ainda tenho muito medo de tomar a decisão e na prática não ser como imaginei e ter que começar tudo de novo.'

Apesar do aumento das responsabilidades, a estudante acredita que com persistência e determinação é possível chegar aonde se quer. 'Esta etapa da vida é assombrada por muitos medos, mas espero que no futuro eu possa olhar para trás e lembrar desses momentos com carinho e ter o sentimento que fiz a escolha certa.'

Foto: Arquivo Pessoal / Luana acredita que é preciso ter determinação para vencer os medos e fazer a escolha certa
Luana acredita que é preciso ter determinação para vencer os medos e fazer a escolha certa

Escolha profissional gera medo e insegurança

Desde o 8º ano do Ensino Fundamental, Thais Immig, 17 anos, já sabia qual a profissão que gostaria de seguir: Jornalismo. Assim que concluiu o Ensino Médio, o curso de Direito despertou o interesse de Thais, e passou a ser a segunda opção profissional da estudante. Com o amadurecimento surgiu a insegurança e a jovem não tinha mais certeza da profissão que gostaria de seguir no futuro. 'Meus principais medos estão envolvidos com minhas escolhas profissionais, se o curso que eu escolhi é realmente o que eu quero e vai ter o retorno que eu espero, além de não ter me decidido entre a universidade pública ou privada.'

Thais acredita que esta decisão é muito difícil, o que acarreta em medos e inseguranças. 'É uma decisão importante porque é a partir daí que vou começar a construir meu futuro e o que eu vou fazer da minha vida profissionalmente. É essa importância que a escolha traz que acaba originando alguns medos.'

A jovem está se preparando para o vestibular e pretende entrar na faculdade no primeiro semestre de 2019. 'Eu planejo prestar vestibular para a universidade pública e privada e, se tiver sucesso, definir com os meus pais qual delas vai ser melhor para mim.' Quanto à profissão, a jovem acredita que o amor pela área deve prevalecer, assim como o Jornalismo, que sempre foi a primeira escolha da estudante. 'Por muito tempo eu tive várias dúvidas sobre o assunto, tanto que eu decidi esperar um ano depois de formada no Ensino Médio pra pensar sobre o rumo que ia seguir. Hoje, a minha escolha está voltada a algo que me traga felicidade. Claro que questões financeiras são importantes, mas não são prioridade', finaliza.

 

Foto: Arquivo Pessoal /

 

Na hora da insegurança, o apoio dos pais e amigos

Melissa Beatriz Kist é estudante do 9º ano da escola Odila Rosa Scherer. Apesar de ter apenas 15 anos, ela revela que tem medo de fazer escolhas erradas em relação ao futuro profissional e de não realizar seus sonhos. Entre seus objetivos está viajar e conhecer outros países. Outro questão que a deixa apreensiva é o receio de perder as pessoas que ama sem ter tido tempo de falar e demonstrar tudo que sente. 'Sobre meus medos tento enfrentá-los da melhor maneira possível. Procuro conversar com as pessoas a respeito dos meus medos e receios, pois meus pais e meus amigos estão sempre dispostos a me ajudar e a me aconselhar', conta.

Foto: Arquivo Pessoal / Melissa sonha em viajar e conhecer outros países
Melissa sonha em viajar e conhecer outros países

Relato pilhado

Por Thalia Schulz

'Meu maior medo é perder alguém específico. Essa pessoa tem nome e características bem marcantes! Hoje, com 16 anos, uma personalidade ímpar, um coração enorme e uma postura de durona, minha irmã - a quem eu chamo carinhosamente de "BB" e isso talvez a tenha feito passar por alguns momentos de vergonha - é meu maior amor e, também, a representação do meu maior medo: perdê-la. Ah, se tem algo que me deixa enlouquecida é pensar que quando retornar para casa, ela não estará lá. Lidar com a mínima ideia de que ela não voltará para dentro do meu abraço é completamente destruidora.

Perder pessoas é um processo que deveria ser encarado com uma maior naturalidade. Acredito que aceitar que a partida também tem um propósito é aceitar os ciclos da vida. Mas é difícil explicar o porquê com ela esse meu pensamento torna-se nulo. Talvez as situações que passamos juntas nos últimos anos tenham nos mostrado o quanto uma precisa da outra e que juntas somos fortes e estamos protegidas. Por algumas vezes uma foi a única certeza, apoio e conforto que a outra encontrou em meio à turbulência. Fico agoniada quando penso que ela pode estar precisando de mim e não estou ali. Me bate uma sensação de não poder protegê-la das coisas do mundo e isso me faz achar que a qualquer momento ela possa ser tirada de mim! Que ela possa, por todo o nosso sempre, ser o abraço que eu encontro quando volto.'

Foto: Arquivo Pessoal / Thalia Schulz e a irmã Thacieli Schulz
Thalia Schulz e a irmã Thacieli Schulz

Fala aí, psicóloga!

A fase da adolescência é geradora de medos e isso é natural, por ser um período em que o adolescente começa a conhecer muitos aspectos da vida e que até então eram desconhecidos. Para a psicóloga Karine Pezzini, é importante lembrar que o medo é uma reação para se proteger de algo perigoso, ameaçador ou desconhecido. 'O adolescente se depara com medo que as expectativas não serão cumpridas, medo por não saber como agir perante novas situações, medo do futuro, da vida profissional, da vida amorosa, entre outros. Alguns dos medos são construídos na própria família do adolescente, que leva isso consigo.'

Quanto a perder pessoas próximas, a profissional explica que isso não é exclusividade da fase da adolescência, pois aparece em todas as fases da vida. 'No momento que amamos pessoas, logo temos receio que possamos perdê-las e isso é natural.'

Conversa aberta
Por ser um período de transição em que ideias, pensamentos e conceitos são deixados para trás, pois no lugar se colocam novas visões e pensamentos, essa transição gera angústia e insegurança. 'A transição de uma fase infantil para a fase adulta é cheia de expectativas por mais liberdade. Aqui estão as maiores frustrações dessa fase, pois o adolescente almeja uma vida com mais autonomia. Mas então entram as regras e normas dos pais, escola e da sociedade, mostrando ao adolescente que existem limites e exigências. Ele acaba se frustrando perante seus desejos, que não são cumpridos. O tamanho da expectativa é o tamanho do sofrimento e frustração', explica Karine.

Por isso, a psicóloga destaca que é muito importante os pais, pessoas de referência do adolescente, conversarem. 'A questão da flexibilidade também, tanto por parte dos adultos quanto dos adolescentes. A comunicação aberta se torna importante para que o adolescente se sinta acolhido e confortável para conversar sobre o que precisar.'