Na Pilha!

Gravidez na adolescência. E agora?

Da edição
por: Régis Fabris
Data: 04/04/2019 | 10:15

Em meio a essa mistura de sentimentos, dúvidas e emoções que marcam a adolescência, os hormônios estão à flor da pele. No embalo de uma festa ou de uma paixão, a relação sexual acaba acontecendo, muitas vezes, sem preservativo. O resultado, muitas vezes, pode ser uma gravidez sem planejamento.

A gravidez na adolescência é realidade muito mais comum do que se imagina. Dados de 2017 de um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que o Brasil é o sétimo país da América do Sul no ranking de adolescentes grávidas.

No país, um em cada cinco bebês nasce de mãe adolescente. Nesta edição, buscamos abordar o tema de forma sincera e direta. Afinal, o que muda com a chegada de um bebê, durante a adolescência? Como evitar uma gravidez e como ajudar quem encara essa situação? Informação é primordial.

O maior índice de gravidez na adolescência em Venâncio Aires é na faixa etária de 15 e 16 anos. Em 2017, o Centro Materno Infantil de Venâncio Aires atendeu 18 meninas nessa idade. No ano passado, 15 adolescentes dessa faixa etária estavam à espera de um bebê.

Apesar disso, há casos de meninas ainda mais novas que fazem o pré-natal pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Entre as gestantes adolescentes em 2017, Venâncio registrou um caso de uma menina de 12 anos que teve seu primeiro filho. Além disso, seis meninas engravidaram com 14 anos em 2017 e uma em 2018.

Júlia* descobriu que estava grávida, aos 13 anos. Quem percebeu os primeiros sinais foi a irmã mais velha. 'Aí fiz o teste e deu positivo', conta. Apesar de não ter recebido o apoio do pai do bebê, ela contou com auxílio da mãe, que mantém financeiramente a família, que mora no bairro Battisti. 'Quando soube que estava grávida assumi esta responsabilidade. Meu filho não tem culpa do que aconteceu', entende.

A adolescente frequentou a escola somente nos primeiros três meses de gestação. Após dar à luz, voltou à sala de aula, mas, em poucos meses, abandonou os estudos no 5º ano do ensino fundamental. 'No futuro, pretendo fazer a Educação de Jovens e Adultos (EJA)', afirma ela, que hoje tem 15 anos.

RISCOS

A ginecologista e obstetra Adriana Martins explica que, na adolescência, por causa do corpo em formação, há grandes possibilidades de complicações obstétricas, especialmente nas meninas de faixa etária mais baixa.

Os principais riscos de uma gravidez na adolescência são quadros de má nutrição, com carência de nutrientes essenciais para o bom desenvolvimento do bebê, um maior número de abortos espontâneos, partos prematuros, bebês com peso baixo e infecção urinária. Ainda é possível ter complicações psicológicas para a adolescente grávida, como medo de serem rejeitadas socialmente, rejeição ao bebê e problemas com a família.

>> 42 adolescentes de até 16 anos foram acompanhadas pelo Centro Materno Infantil de Venâncio Aires, em 2017 e 2018. Esse número, entretanto, não é o total de meninas grávidas no município, no período, já que também há atendimentos em outros postos de saúde e na rede privada. Neste ano, até o final de março, 3 gestantes do Centro Materno Infantil eram adolescentes.

Prevenção

Para a ginecologista e obstetra Adriana Martins, é importante informar sobre os riscos e complicações da gravidez na adolescência e todas as mudanças que acontecem a partir do momento que uma adolescente engravida. 'O diálogo é essencial e deve haver uma conversa aberta e transparente para que as jovens tenham toda a informação ao seu alcance', ressalta.

A médica lembra que existe uma série de métodos anticoncepcionais disponíveis no mercado. Ela esclarece que não existe o 'melhor' método, mas, sim, o mais adequado para cada mulher. Entre as principais formas de prevenção estão:

- Camisinha feminina e masculina

- Pílula anticoncepcional

- Anticoncepcional injetável

- Adesivo

- Anel vaginal

- Implante anticoncepcional

- Dispositivo intrauterino (DIU)

- Diafragma


'A idade mais apropriada para ser mãe é a partir dos 20 anos, já que o risco para a saúde da mãe e da criança é muito menor.'

Adriana Martins, ginecologista

>> Vou ter uma relação sexual, mas não sei como me prevenir. O que eu faço?

Busque alguém de confiança para conversar e tirar suas dúvidas. Em uma consulta médica, o ginecologista vai orientar sobre a melhor forma de se prevenir. Postos de saúde distribuem preservativos e anticoncepcionais gratuitamente.


>> Estou grávida. E agora?

Procure alguém de confiança para conversar - um familiar, um professor, um amigo -, busque apoio e comece a fazer o pré-natal o quanto antes. O acompanhamento da gestação é garantido pelo SUS, basta procurar um posto de saúde.


>> Minha amiga ou namorada está grávida.

Como ajudar?

Ofereça ajuda sem julgamentos e auxilie ela a procurar orientação de um profissional, o quanto antes. Lembre que o respeito e a empatia devem prevalecer, sempre.

 

>> Como garoto também tenho responsabilidade em uma gravidez?

Com certeza. A relação sexual envolve duas pessoas que compartilham responsabilidades. Utilizar os métodos contraceptivos e arcar com as consequências são deveres tanto do menino quanto da menina.

Na sala de aula

A professora e orientadora educacional da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Cidade Nova, Rosangela Kaercher, 44 anos, acredita que palestras, orientações sobre o assunto com leituras e reflexões auxiliam na conscientização.

'O tema também é abordado em sala de aula pelos professores. Quando há uma aluna grávida, não percebemos tanto o preconceito, mas sim a curiosidade, já que são todos adolescentes. Para evitar possíveis conflitos, conversamos com a turma de maneira clara e objetiva sobre o assunto, observando que em momento algum a aluna seja exposta ou sinta-se constrangida', enfatiza.

Rosangela conta que já acompanhou o caso de uma aluna grávida e a escola auxiliou no retorno da estudante. 'A moça demonstrou estar tranquila, foi acolhida e orientada sobre seus direitos e do bebê para que sua permanência na escola fosse assegurada.'

Além disso, a professora destaca que a escola, ao perceber a gravidez da adolescente, procura orientar e enfatizar a necessidade e a importância do acompanhamento médico. 'Se houver a observação ou suspeita de qualquer necessidade de um encaminhamento especial, este é feito ao Conselho Tutelar, assistência social e posto de saúde.

Solicitamos atestado médico orientando sobre a realização de atividades físicas, bem como para o devido afastamento e realização dos trabalhos amparados legalmente. A escola recebe muito bem a aluna e realiza todos os procedimentos para garantir o seu direito de aprendizagem.'

Nova forma de encarar a vida

Quando a filha Lavínia de Brito Ribeiro nasceu, em 30 de novembro do ano passado, todas as atenções de Graziela de Brito, 20 anos, passaram a ser voltadas à pequena. Para a agricultora, o apoio da família foi muito importante nesta nova fase.

'Meu marido e meus familiares me apoiaram durante toda a minha gestação. Saber que tenho alguém do meu lado, uma pessoa em quem confiar, foi essencial para eu não me sentir sozinha', afirma.

Graziela comenta que teve uma gestação bastante tranquila e que o momento mais difícil foi durante o parto. Ela acredita que ser mãe trouxe mais amadurecimento e responsabilidade. 'Depois que recebi a Lavínia em meus braços mudei a forma de ver a vida. A partir de agora, ela é a minha prioridade. Antes de fazer algo, penso primeiro no bem-estar dela.'