Estudante classificada em Medicina na UFRGS dá dicas para aprovação

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por: Rosana Wessling
Data: 29/01/2019 | 17:15

O sonho de cursar Medicina, anos de estudos e a tão sonhada aprovação em Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Esse foi o caminho da venâncio-airense Patrícia Gabriela Riedel, 21 anos, que decidiu durante a 7ª série do ensino fundamental que lutaria pelo seu sonho.

Ela conta que o interesse surgiu durante a exibição do filme 'Mãos Talentosas', em que o protagonista, um jovem de baixa renda, com a ajuda de sua mãe, persiste no mundo dos estudos e torna-se neurocirurgião, sendo o pioneiro a fazer a cirurgia de separação de bebês siameses. Ao mesmo tempo, outro filme assistido em aula, chamado 'Quase deuses', com enredo semelhante que serviu de motivação.

Essas duas obras me fizeram enxergar a responsabilidade que o médico tem de levar melhor qualidade de vida aos seus pacientes. Saber que, a partir da minha ação, eu posso ajudar a saúde de um ser humano ou até mesmo salvá-la, diante de uma situação de morte, me deixará muito feliz e realizada. Também quero poder levar a Medicina de qualidade a lugares remotos, onde muitos médicos formados, às vezes, não chegam, por difícil acesso, falta de estrutura ou motivo particular."

Foto: Arquivo pessoal / DivulgaçãoPatrícia com os ....:
Patrícia com os pais, Cléria e Vilmar Riedel e a irmã Fernanda, na comemoração da primeira aprovação em Medicina, em 2017

Trajetória em instituições públicas

Aluna de escola pública, Patrícia estudou na Escola Estadual de Educação Básica Cônego Albino Juchem, da pré-escola à 8ª série, e no Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) Venâncio Aires, durante o ensino médio. Com o resultado de aprovação na UFRGS, divulgado há cerca de duas semanas, ela deve iniciar os estudos na instituição localizada em Porto Alegre.

"O mundo do vestibular é cruel"

Patrícia tentava uma vaga em Medicina em uma universidade federal desde 2016. 'O caminho foi bem difícil. O mundo do vestibular é cruel, ele te suga por inteiro e, no meu caso, tive o privilégio de poder contar sempre com o apoio da minha família. Meu pai planta fumo e minha mãe é costureira em uma firma. Mesmo sabendo que passar em Medicina é concorrido, eles investiram o que tinham e até o que não tinham para me proporcionar a chance de estudar.'

Desde quando Patrícia cursava o 2º ano do ensino médio já frequentava salas de provas como treineira, a exemplo do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). No primeiro teste ela conquistou 920 pontos na redação. 'Fiz dois anos de Enem como treineira e no 4º ano do ensino médio eu já conhecia a prova, mas mesmo assim não atingi a média necessária para Medicina.' Os vestibulares na UFRGS também começaram a fazer parte da rotina da estudante no 3º ano do ensino médio. 

Foto: Arquivo pessoal / DivulgaçãoPatrícia participava dos
Trabalho voluntário com o grupo 'Doutores P' foi um dos que precisou ser deixado de lado para se dedicar aos estudos


Ela fez vestibulares em diversas universidades particulares para treinar, pois, sabia que não teria como custear a mensalidade que, segundo Patrícia giram em torno R$ 6 mil por mês. Antes disso, Patrícia foi aprovada em outras faculdades e cursos, mas o sonho era Medicina, em uma federal. A primeira aprovação em Medicina foi na Unifra, em Santa Maria, em 2017.

Lembro que perguntei para minha mãe se ela tinha mesmo como pagar minha inscrição, porque era R$100. Os vestibulares para Medicina são bem caros, e vai que eu não passasse, mais um gasto. Então, ela me questionou: 'Mas tu já vai fazer a prova achando que não vai conseguir?'. Fiz a prova e fui chamada. Era a minha primeira aprovação em Medicina. Quem não vive o mundo do vestibular pode pensar que não faz diferença por eu não ia cursar, mas para a minha confiança e autoestima fazia sim."

No final de 2017, aconteceu outro episódio marcante na vida estudantil de Patrícia. 'Eu não tinha uma nota muito alta, mas havia chances de conseguir uma bolsa pelo Prouni na Unisc. Porém, eram apenas 4 vagas, enquanto havia outras universidades com 15 vagas ou mais. Não optei pela Unisc. Na 3ª chamada, chamaram uma pessoa com uma nota menor que a minha, ou seja, se eu tivesse me inscrito lá, teria conseguido. Fiquei arrasada. Chorei muito mesmo. Não entendia porque aquilo estava acontecendo comigo, me culpei muito. Busquei ajuda psicológica e consegui superar isso.'

Foram três anos de cursinho, rotinas repletas de estudos e após outras tentativas, finalmente, no dia 20 de janeiro deste ano, ela conta que tremeu ao ver o nome no listão da UFRGS - universidade totalmente gratuita. 'Sem palavras. Só gratidão. E, agora, outra aprovação em federal pelo Sisu, na Universidade Federal de Rio Grande (Furg).'

Foto: Arquivo pessoal / DivulgaçãoPatrícia com o namorado Cristian Glier, na comemoração do resultado da UFRFS, neste mês
Patrícia com o namorado Cristian Glier, na comemoração do resultado da UFRFS, neste mês

Confira dicas de Patrícia para quem deseja a aprovação no vestibular

1- Busque orientação e material de estudo
Patrícia enfatiza que acredita em oportunidades e não em meritocracia. Ela destaca que passar em Medicina em uma federal exige do vestibulando diversos conteúdos.

Eu gostaria de dizer, principalmente, para você que é aluno de escola pública como eu fui, que busque falar com seus professores do colégio pedindo uma orientação e material de estudo específico para a prova que você pretende fazer. Eu recebi muita doação de material de estudo de professores antes mesmo de entrar para o cursinho. Frequentava muito a Biblioteca Pública em busca das Leituras Obrigatórias ou pedia para amigos verem nas bibliotecas de suas faculdades."


2- Foque no sonho, se conheça

Sempre muito ativa socialmente, Patrícia teve que deixar diversas atividades de lado, como por exemplo capoeira, trabalho voluntário e dança alemã, para se dedicar ao sonho. 'Se conheça. Eu sabia que se tivesse Instagram, Facebook, Snapchat instalado no meu celular, eu iria perder um tempo precioso olhando isso e muitas vezes dispersar meu pensamento focando em coisas desnecessárias. Desinstalei tudo, deixei só o Whatsapp, no qual retirei o visto por último e o azul de visto das mensagens. Olhava o Insta só nos findis e o Face abria cinco minutos antes de dormir para olhar o grupo do cursinho.'


3- Não se desespere

Patrícia conta que sempre tentou manter em dia os exercícios que eram dados, mas no terceiro ano de cursinho, percebeu que ao não dar mais tempo de fazer algo, não devia se desesperar, mas sim, respirar e separar o que era prioridade e faltava conhecimento. 'Ordene suas prioridades! Se está na semana do Enem, faça exercícios ou revise Enem! Quando passar isso, você foca no próximo desafio."

Se você não puder pagar por um cursinho, não se desespere, procure conversar e explicar a sua determinação, comprometimento durante a escola e sua organização para buscar o seu sonho. Muito importante: foque no que você deseja."

4 - Reserve um local para estudar

Patrícia aconselha que cada estudante reserve um espaço de estudo em casa e "peça, respeitosamente, silêncio para sua família quando preciso'.


5 - Desenvolva seu método

'Você não é os outros! Foi difícil até eu introduzir isso na minha mente. Quando via alguém fazendo algo diferente me sentia culpada por não fazer daquele jeito. Errado. Depois da minha primeira aprovação, eu sabia o que funcionava para mim e desenvolvi meu ritual pré-prova, por exemplo', explica.


6 - Quantidade não é qualidade!

Patrícia comenta que sempre tentou manter em dia os exercícios que eram dados, mas no terceiro ano de cursinho, percebeu que, ao não dar mais tempo de fazer algo, não devia me desesperar. "Mas, sim, respirar e separar o que era prioridade e faltava no meu conhecimento. Outro ponto: ordene tuas prioridades!", salienta.

7 - Seja do seu time!
'Muitas pessoas vão falar de você ou dar indiretas que você já podia estar na faculdade. Seja educado e tente explicar da melhor forma que passar em Medicina em uma particular é difícil, assim como em uma federal também é. E uma dica: prepare seus pais para responder esses questionamentos maldosos', conclui Patrícia.