Na Pilha!

Como se forma um leitor?

Da edição
por: Régis Fabris
Data: 10/01/2019 | 10:07

O que faz alguém se tornar um devorador de livros, daquele que sempre anda com a mochila pesada e não vê a hora de chegar em casa, colocar as pernas para cima e mergulhar em uma história? Existe uma fórmula que ajude alguém a se tornar leitor?

Para o mestre em Letras e pró-reitor de Graduação da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Elenor José Schneider, não dá para definir de maneira linear como se forma um leitor.

Cada um tem uma história, um percurso particular nesse sentido. Algumas crianças se encantam com as primeiras letras e se tornam leitoras assim que isso lhes é possível', observa.

Foto: Divulgação / Na Pilha!Elenor Schneider é mestre em Letras e pró-reitor de Graduação da Unisc
Elenor Schneider é mestre em Letras e pró-reitor de Graduação da Unisc

Para o professor, entretanto, não há dúvida de que o ambiente é fundamental. 'Pais ou irmãos que leem, que penetram o mundo do conhecimento através da leitura, certamente vão inspirar quem está a seu redor. Se a criança ou o jovem não tem essa possibilidade em casa, a escola entra como promotora fundamental', explica.

Na opinião de Elenor, não há 'alma perdida' no caso da leitura. Ou seja, sempre há tempo de se tornar leitor, independentemente de já estar na adolescência ou mesmo na vida adulta. 'Já me deparei com centenas de pessoas que nunca tinham lido um livro, ou lido alguma coisa muito básica e que, após lhes explicar a importância de ler e como ler, se tornaram leitores fervorosos.'

No entanto, entrar para o clube dos adoradores de livros exige uma atitude indispensável: insistir no exercício.

'Quem lê esporadicamente, muitas vezes por acidente, não tomará gosto pela leitura. Vale o mesmo que para o exercício físico: quem gosta de praticar, é sistemático, persistente e o faz com prazer. Quem faz uma vez por mês, é candidato certo à desistência', compara Elenor.

Ele ainda acrescenta a importância de investimento pessoal, organização e desejo como ingredientes para se tornar um leitor. 'Ler e escrever não são atividades fáceis, precisam de ânimo e impulso constantes.'

A técnica em Informática Fernanda Luísa Schwaickhardt, 18 anos, não lembra de uma 'receitinha mágica' para que se tornasse uma leitora assídua. Ela recorda, entretanto, que sempre recebeu muito incentivo da mãe, professora aposentada, e das escolas em que estudou, que foram as responsáveis pelos primeiros empréstimos de livros.

Fernanda costuma ler bastante e, durante as férias, perde a conta de quantos livros 'devora', porém, no período escolar conta que lê, no mínimo, um por mês. 'Não tenho uma rotina, eu vejo a leitura como um lazer, então aproveito minhas horas vagas, principalmente no fim de tarde, adoro ler acompanhada de um mate.'

Foto: Divulgação / Na Pilha!Com o hábito de trocar livros, Fernanda considera a leitura um prazer
Com o hábito de trocar livros, Fernanda considera a leitura um prazer

O hábito da leitura para Fernanda começou quando ela conheceu os livros maiores, com histórias mais envolventes do que as de literatura infantil. 'Lembro bem que me apaixonei por todos os livros do Nicholas Sparks.' O livro que mais marcou a estudante foi 'O pequeno príncipe', 'ganhei o livro da minha prima com uma dedicatória linda sobre não esquecer dos meus planetas, flores e estrelas. Até hoje gosto muito pela linguagem simples e porque todas as vezes que leio percebo detalhes novos.'

Leitora incessante, Fernanda está lendo, no momento, 'A graça da coisa', de Martha Medeiros, e relendo 'Só por hoje e para sempre', um diário escrito por Renato Russo. Ela conta que admira a autora Rupi Kaur, porque os poemas mostram como o amor próprio muda a vida das pessoas e como tudo é superável. 'A história de vida dela é muito bonita também, vale a pena conferir', completa.

TROCA DE CONHECIMENTO

Fernanda considera interessante a ideia de compartilhar leituras, por isso, tem trocado bastante livros com amigos, familiares e conhecidos. Ainda continua comprando na internet, mas retira bastante livros na Biblioteca Pública Caá yari, de Venâncio Aires.

A jovem é natural de Linha Brasil, interior do município e, durante muitos anos costumava vir à cidade para trocar os livros na biblioteca com bastante frequência. Devido ao gosto e à paixão pela leitura, Fernanda já 'devorou' livros enormes em apenas quatro dias, por gostar e se envolver com a história.

Um fato lembrado por ela é que, junto de uma amiga, foi a Porto Alegre em 2014 para comprar e autografar um livro da Mel Fronckowiak, da qual eram fãs, devido à interpretação de Mel na versão brasileira da telenovela Rebelde.

OPÇÕES

A leitura representa uma saída da vida real ou a volta para Fernanda. Ela explica que cada livro tem um objetivo diferente.

Quando quero viajar um pouco, me afundo em um romance bem clichê, mas quando preciso voltar para a vida real, procuro muito a poesia, acho que me faz ver as coisas de forma mais bonita.'

Fernanda não tem dúvidas da importância da leitura na formação, ela gosta de escrever e consegue se comunicar com todos, fato que atribui à leitura. O bom desempenho em vestibulares e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ela também associa aos livros.

A jovem acredita que o gosto pela leitura precisa vir desde criança. 'Não sei muito bem uma receita, mas acho bem interessante começar por livros que viraram filmes ou séries, para poder comparar a diferença. Fora isso, acho que o mais importante é que os pais apresentem os livros já na infância, porque a leitura que cresce com a gente, permanece com mais facilidade.'

Eles compartilham do gosto pela leitura

Os irmãos Guilherme e Pedro Henrique Chiudini Landim, 14 anos, são dois adolescentes que demonstram muito interesse pela leitura. Desde os 8 anos, eles carregam o hábito de ler, adquirido na escola, por incentivo dos professores da época. Neste ano, eles ingressam no 9º ano da Escola Estadual de Ensino Médio Cônego Albino Juchem.

Foto: Divulgação / Na Pilha!Irmãos Pedro e Guilherme mantêm o hábito de ler desde a infância
Irmãos Pedro e Guilherme mantêm o hábito de ler desde a infância

Questionados sobre suas preferências, eles confessam que leem de tudo, de acordo com a vontade e o interesse do momento. Apesar disso, Guilherme afirma ser mais atraído pelos livros de aventura. Já Pedro, gosta de ler Martha Medeiros. Na organização do dia dos gêmeos e em seus horários, a leitura tem vez pela manhã, que é quando estão na escola ou em casa.

A dupla diz que o gosto e o hábito de ler foram acontecendo aos poucos.

Começamos lendo livros pequenos. Com o passar do tempo e o amadurecimento da leitura, iniciamos livros maiores, de grandes histórias', salienta Guilherme.

Entre seus livros favoritos, despontam as clássicas séries de Deltora Quest.


Fisk