Aprender a encarar a saudade e a receber o novo

Da edição
por: Débora Kist
Data: 24/05/2018 | 09:52

Superar a morte é sempre algo muito complicado. E aqui entende-se superação como aquilo que foi bem entendido, absorvido e não será empecilho para, quem ficou, seguir com sua vida. Afinal, crescemos com a consciência de que tudo passa e tudo tem um fim, mas quando se trata de perda, talvez a superação demore, dependendo de cada um. Mantemos o luto, geralmente, por pessoas próximas e queridas.

Mas há muitos casos em que animais de estimação, que também ocupam um lugar especial no coração de muito gente, são responsáveis por causar um grande sentimento de tristeza quando morrem. Para entender mais sobre o que significa e como lidar com o luto por um animal, fomos conhecer pessoas que passaram pela situação da perda dos seus bichinhos e ouvimos também profissionais que ajudam a entender essas situações. Esse Na Pilha! não é para falar apenas de coisas tristes, mas sim lembrar das alegrias do convívio entre humanos e animais.

A história da Malu - Quando a Vitória Heloisa Seidel nasceu, há nove anos, a Malu já fazia parte do dia a dia do casal Lizandra e Luciano. A cadelinha da raça Dachshund, o popular 'linguiça', tinha quatro anos na época. A menina cresceu rodeada pela cachorra, que sempre 'cuidou' dela, seja quando as amigas da Vitória iam visitá-la ou quando entrava na piscina. Malu não desgrudava. Na escola, todos os desenhos que representavam a família Seidel eram compostos, nas palavras da Vitória, 'por mim, pelo pai, pela mãe e pela Malu'.

Assim foi durante toda a infância da Vitória, até a Malu adoecer no início do ano. Com 13 anos, a cadelinha foi diagnosticada com um problema cardíaco que desencadeou vários outros. 'O veterinário logo nos alertou de que era muito grave, que não teria cura', conta Lizandra. Assim que iniciaram o tratamento, os pais também iniciaram as conversas com a filha, de que teriam de cuidar do animalzinho, mas que talvez não sobrevivesse. Infelizmente, a Malu faleceu quatro meses depois. A perda causou um grande sentimento de tristeza na família Seidel, mas principalmente na Vitória. 'Foram dias bem complicados e estávamos preocupados', revelou Lizandra.

Para minimizar a saudade e o vazio na casa, a ideia foi ter logo outro bichinho. A nova integrante da família tem apenas três meses e também é uma Dachshund, batizada de Luna. Tentando segurar a filhote cheia energia no colo, Vitória diz que nunca vai esquecer da Malu. 'Às vezes sinto falta, porque com ela aprendi que eles só tentam demonstrar amor, que para eles somos únicos.'

Foto: Divulgação / Arquivo pessoalNas palavras da família Seidel, a Malu é uma doce lembrança, eternizada também nos porta-retratos
Nas palavras da família Seidel, a Malu é uma doce lembrança, eternizada também nos porta-retratos
Foto: Débora Kist / Folha do MateLuciano, Lizandra e Vitória, com a Luna, a nova integrante da família
Luciano, Lizandra e Vitória, com a Luna, a nova integrante da família

A história do Scooby - Débora Hickmann Chaves tem 20 anos e praticamente metade desse tempo conviveu com o Dachshund Scooby. Hoje, mais de um ano depois da morte do cachorro, a estudante de biomedicina diz que ainda não superou. 'Sabe aquele cachorro que sabe a hora que você chega em casa, que espera no portão, que praticamente fala contigo? Esse era o Scooby', conta.

Parte da dificuldade em superar a perda do animal de estimação é por um sentimento de culpa, já que o Scooby teria adoecido pela falta de algumas vacinas. A tristeza foi tamanha, que desencadeou e agravou problemas de saúde na própria Débora. 'Tive depressão e síndrome do pânico. Precisei da ajuda de um psicólogo e tomar remédios', revela. 

Passados os dias mais difíceis, Débora transferiu todo o carinho pelos animais para o Pelé, cachorro que já tinha na época do Scooby. Mas era muito amor para pouco animalzinho, então a família canina foi aumentando. Assim, foram chegando na casa as fêmeas Bi, Riva e Pretinha, todas adotadas. 'Ainda sinto muita falta do Scooby e os outros nunca vão suprir a ausência dele. Mas isso não impediu de amar e receber quem também estava precisando.'

Foto: Divulgação / Arquivo pessoalScooby viveu quase 10 anos
Scooby viveu quase 10 anos
Foto: Débora Kist / Folha do MateDepois que perdeu Scooby, Débora adotou outros cães e hoje tem quatro
Depois que perdeu Scooby, Débora adotou outros cães e hoje tem quatro

O que dizem os profissionais

Segundo o médico veterinário Lucas Lorenzom, o óbito é sempre um momento delicado, tanto para o profissional quanto para o tutor do animalzinho. 'Nessas situações onde o óbito é uma realidade, devemos ter o cuidado em relação a maneira com a qual iremos abordar o assunto, pois muitas vezes as pessoas não estão preparadas para a possibilidade da perda de seu bichinho. Não temos como aprender a lidar com esses momentos, são coisas que a rotina e o dia a dia nos ensinam.'

O profissional destaca que, em casos extremos, algumas pessoas procuram auxilio profissional para superar a perda. 'Hoje em dia, muitos até nos pedem atestados para justificar a ausência em seus trabalhos, em caso de necessidade de levar seu animalzinho ao veterinário.' 

Para a psicóloga Daniela Graef, o luto animal é mais comum na infância, pois um bicho de estimação costuma fazer as vezes do afeto recebido pelas pessoas. 'Assim como perder pessoas nessa época, perder os animais é muito doloroso. Nos casos que atendo na infância, geralmente o luto animal está ligado a outras perdas.'

O número de pets no Brasil

Conforme o médico veterinário Lucas Lorenzom, cálculos atuais mostram que, no mundo, existem cerca de 130 milhões de animais de estimação, principalmente cães, gatos, peixes, aves e alguns tipos mais exóticos. Um levantamento feito pelo IBGE juntamente com a Associação Brasileira de Indústrias de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), mostrou que o Brasil tem cerca de 22,1 milhões de felinos e 52,2 milhões de cães, sendo que a população de gatos se multiplica em proporção muito maior que a canina.